Como a MĂșsica afeta o CĂ©rebro

Quando um trecho de mĂșsica Ă© tocado, um grupo especĂ­fico de neurĂŽnios escondido no cĂłrtex auditivo do ouvinte Ă© disparado

Em pesquisas internacionais, as pessoas quase sempre incluem a mĂșsica como uma das fontes supremas de prazer e poder emocional em suas vidas. Nos casamos ao som de mĂșsica, nos formamos ao som de mĂșsica e enfrentamos o luto ao som de mĂșsica. AtĂ© hoje, todas as culturas estudadas fazem alguma forma de mĂșsica e entre os objetos artĂ­sticos mais antigos jĂĄ encontrados estĂŁo flautas feitas de ossos de mamute, algumas com mais de 43 mil anos – ou seja, 24 mil anos antes das pinturas rupestres de Lascaux.Musblog cĂ©rebro

Em vista da antiguidade, da universalidade e da profunda popularidade da mĂșsica, muitos pesquisadores presumem hĂĄ bastante tempo que o cĂ©rebro humano seja equipado com algum tipo de “cĂąmara musical”, uma ĂĄrea especĂ­fica da arquitetura cortical dedicada Ă  detecção e interpretação dos deliciosos sinais sonoros. Ainda assim, por muitos anos os cientistas foram incapazes de encontrar qualquer evidĂȘncia clara de uma ĂĄrea do cĂ©rebro dedicada Ă  mĂșsica por meio de tecnologias convencionais de escaneamento cerebral, frustrando as tentativas de compreender as bases neurais dessa paixĂŁo fundamentalmente humana.

Agora, pesquisadores do MIT desenvolveram uma abordagem radical de anĂĄlise cerebral que revela dados que estudos anteriores ignoraram. Por meio da anĂĄlise matemĂĄtica de exames do cĂłrtex auditivo e agrupamento de grupos de neurĂŽnios com padrĂ”es de ativação similares, os cientistas identificaram caminhos neurais que reagem quase exclusivamente ao som da mĂșsica – de qualquer mĂșsica. O ouvinte pode adorar ou detestar a canção apresentada. NĂŁo importa. Quando um trecho de mĂșsica Ă© tocado, um grupo especĂ­fico de neurĂŽnios escondido no cĂłrtex auditivo do ouvinte Ă© disparado em resposta.

Outros sons, por sua vez – o latido de um cão, a freada de um carro, a descarga do banheiro – deixam os circuitos musicais intocados.

Nova ferramenta

Nancy Kanwisher e Josh H. McDermott, professores de NeurociĂȘncia do MIT, e seu colega de pĂłs-doutorado Sam Norman-Haignere relataram os resultados na revista cientĂ­fica Neuron. As descobertas oferecem aos pesquisadores uma nova ferramenta para explorar os contornos da musicalidade humana.

“Por que a mĂșsica existe? Por que gostamos tanto dela e queremos dançar quando a ouvimos? Em que momento do desenvolvimento humano podemos ver essa sensibilidade Ă  mĂșsica, e serĂĄ que ela pode ser aprimorada com a experiĂȘncia? Essas sĂŁo algumas questĂ”es de primeira ordem muito legais que começamos a tentar responder”, disse Nancy em uma entrevista.

McDermott afirmou que o novo mĂ©todo poderia ser utilizado para analisar os resultados de exames de qualquer aparelho de ressonĂąncia magnĂ©tica funcional – o principal instrumento da neurociĂȘncia – ajudando a revelar outras pĂ©rolas escondidas da especialização cortical. Como prova de princĂ­pio, os pesquisadores demonstraram que seu protocolo analĂ­tico havia detectado um segundo caminho neural no cĂ©rebro, cujas evidĂȘncias jĂĄ haviam sido encontradas pelos cientistas, e que entrava em ação ao som da fala humana.

O mais importante Ă© que a equipe do MIT demonstrou que os circuitos ligados Ă  mĂșsica e Ă  fala ficam em partes diferentes do enorme cĂłrtex auditivo do cĂ©rebro, onde todos os sinais sĂŁo interpretados, revelando que cada ĂĄrea Ă© basicamente surda aos estĂ­mulos da outra, embora haja uma correspondĂȘncia quando a mĂșsica Ă© acompanhada por um cantor.

TĂŁo fundamental quanto a fala

O novo artigo “realiza uma abordagem bastante inovadora e Ă© de grande importĂąncia”, afirmou Josef Rauschecker, diretor do LaboratĂłrio de NeurociĂȘncia Integrativa e Cognição da Universidade Georgetown. “A ideia de que o cĂ©rebro dĂĄ um tratamento especializado ao reconhecimento musical, que ele reconhece a mĂșsica como uma categoria tĂŁo fundamental quanto a fala, Ă© muito empolgante para mim.”

Na verdade, afirmou Rauschecker, a sensibilidade musical pode ser mais fundamental para o cĂ©rebro humano do que a percepção da fala. “Existem teorias que apontam que a mĂșsica seja mais antiga que a fala ou as lĂ­nguas. Algumas pessoas argumentam inclusive que a fala se desenvolveu a partir da mĂșsica.”

E embora o valor da mĂșsica como ferramenta de sobrevivĂȘncia dos nossos ancestrais nĂŁo seja tĂŁo Ăłbvio quanto o poder de reconhecer palavras, Rauschecker acrescentou: “a mĂșsica serve para dar coesĂŁo a um grupo. Tocar mĂșsica com outros indivĂ­duos da tribo Ă© uma atividade muito antiga e essencialmente humana”.MusBlog cĂ©rebros

Elizabeth Hellmuth Margulis, diretora do Laboratório de Cognição Musical da Universidade do Arkansas, afirmou que quando grupos anteriores de neurocientistas foram incapazes de encontrar um centro musical anatomicamente distinto no cérebro, eles chegaram a uma série de outras razÔes para explicar os resultados.

“Diziam na Ă©poca que o que havia de especial sobre a percepção musical Ă© como ela recruta ĂĄreas de diversas regiĂ”es do cĂ©rebro, como envolve o sistema motor, a fala, a compreensĂŁo social, e une todas essas ĂĄreas”, afirmou. Alguns pesquisadores negam que a mĂșsica seja um “passatempo auditivo”, que copia outras necessidades comunicativas essenciais. “Esse artigo diz o contrĂĄrio. Depois de analisar alĂ©m do nĂ­vel simplista visto em algumas metodologias, Ă© possĂ­vel encontrar circuitos muito especĂ­ficos que respondem mais Ă  mĂșsica que Ă  fala.”

Trabalho de campo

O laboratório de Nancy Kanwisher é reconhecido em todo o setor por seu trabalho pioneiro a respeito da visão humana e da descoberta de que partes fundamentais do córtex visual são desenvolvidas para reconhecer imediatamente alguns objetos significativos do meio ambiente, como rostos e partes do corpo humano. Os pesquisadores se questionaram se o sistema auditivo pode ser organizado de forma similar para reconhecer a paisagem musical por meio de exames categóricos. Se a resposta for positiva, quais seriam as categorias mais salientes? Quais são os equivalentes musicais de um rosto, ou uma perna humana, os sons ou elementos sonoros tão essenciais que o cérebro dedica um pouco de matéria cinzenta exclusivamente para detectå-los?

Para responder essa questĂŁo, McDermott, que jĂĄ foir DJ de rĂĄdio e em festas, e Norman-Haignere, violonista clĂĄssico de grande habilidade, começaram a coletar uma discoteca de sons do dia a dia – mĂșsica, fala, riso, choro, sussurros, freadas, bandeiras tremulando, pratos sendo empilhados, o clique do fogo e o sino de vento. Onde quer que vĂŁo, os dois pedem sugestĂ”es. SerĂĄ que esqueceram de incluir alguma coisa?

Eles colocaram a longa lista de sons em votação no serviço de crowdsourcing Amazon Mechanical Turk para determinar quais sons eram os mais facilmente reconhecĂ­veis e os ouvidos com maior frequĂȘncia. Essa pesquisa em massa ajudou a gerar um conjunto de 165 gravaçÔes distintas e imediatamente identificĂĄveis com dois segundos cada. Em seguida, os pesquisadores examinaram os cĂ©rebros de 10 voluntĂĄrios (nenhum deles mĂșsico) enquanto ouviam inĂșmeras sĂ©ries incluindo as 165 gravaçÔes.

Concentrando-se na regiĂŁo auditiva do cĂ©rebro – localizada, como seria de se esperar, nos lobos temporais, logo acima das orelhas – os cientistas analisaram matematicamente os voxels (pixels tridimensionais) das imagens para detectar os padrĂ”es de ação ou repouso neuronal.

“A força de nosso mĂ©todo Ă© que ele nĂŁo levantou hipĂłteses a priori. Simplesmente apresentamos uma sĂ©rie de sons e deixamos que os dados falassem por conta prĂłpria”, afirmou McDermott.

Os cĂĄlculos geraram seis padrĂ”es de resposta bĂĄsicos, seis formas utilizadas pelo cĂ©rebro para categorizar os ruĂ­dos. Mas a que correspondem essas categorias? Ao conectarem as gravaçÔes a padrĂ”es de ativação, os pesquisadores determinaram que quatro desses padrĂ”es estĂŁo ligados Ă s propriedades fĂ­sicas do som, como tom e frequĂȘncia. O quinto estava ligado Ă  percepção da fala, e quanto ao sexto, os dados revelaram o ponto neuronal do cĂłrtex auditivo responsĂĄvel por identificar todas as gravaçÔes musicais tocadas pelos pesquisadores.

“O som de um solo de bateria, de assobio, mĂșsica pop, rap, praticamente tudo que pudesse ser reconhecido como mĂșsica, seja do ponto de vista rĂ­tmico ou melĂłdico, o ativava. É por isso que o resultado nos surpreendeu. Os sinais de fala sĂŁo muito mais homogĂȘneos”, afirmou Norman-Haignere.

Os pesquisadores ainda devem determinar exatamente quais caracterĂ­sticas acĂșsticas da mĂșsica estimulam esse caminho neural. A constĂąncia relativa do tom de uma nota musical? Suas interaçÔes harmĂŽnicas? E hĂĄ atĂ© mesmo a dificuldade para se determinar o que pode ser reconhecido como mĂșsica.

Ouvindo

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Interpretando

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“É difĂ­cil fazer uma definição de dicionĂĄrio. Acho que a melhor forma de definir o que Ă© mĂșsica Ă© atravĂ©s de exemplos”, afirmou McDermott.”

fonte | The New York Times |25/02/2016|Marcos Chin/NYT
Gazeta do Povo