A poética do som
O pianista Wagner Tiso estará no Festival Jazz & Blues 2010, mostrando em Guaramiranga e Fortaleza seu duo com o violonista Victor Biglione
Um é mineiro, pianista e um dos mais renomados e produtivos arranjadores da nossa música. Outro nasceu na Argentina, mas foi adotado pelo Brasil, através da música. O Rio de Janeiro foi cenário para o encontro de ambos, ainda em meados da década de 80. A identificação musical renderia uma forte parceria, já registrada em disco e constantemente revisitada em shows. Como os que acontecem em Guaramiranga e Fortaleza,este mês, na 11ª edição do Festival Jazz & Blues.
Wagner Tiso e Victor Biglione prometem protagonizar mais um dos encontros previstos pela programação do evento este ano. Enquanto os pianos do também mineiro Túlio Mourão e do cearense Antônio José Forte dividirão o palco, respectivamente, com o violão de Nonato Luiz e a percussão de Robertinho Silva, Wagner chega para trocar acordes e frases com o argentino Victor Biglione – um violonista que, como destaca o maestro mineiro, toca como guitarrista.
“Ele não é um violonista, que toca com os dedos. É um guitarrista, que toca com palheta. Dentro desse tipo de performance que ele criou, ele é um virtuoso”, elogia, falando desde o Rio de Janeiro ao Caderno 3. “O que mais me chama atenção é o conhecimento dele de frases jazzísticas. Ele conhece tudo! E o virtuosismo que ele tem pra tocar esse tipo de coisa”, acrescenta, sobre o parceiro com quem gravou o disco “Tocar – A Poética do Som”, lançado em 2004.
“Tocar em duo assim exige muito conhecimento de um pelo outro. Ele é um solista que eu admiro muito, respeito muito a maneira de ele tocar. Por isso estamos tocando juntos”
Victor já conhece o Festival de Guaramiranga, após sua apresentação com a cantora fluminense Ithamara Koorax, na edição de 2005, e, segundo Wagner, compartilhou impressões sobre o evento. “Ele me falou que é muito legal, que a estrutura é muito boa, que é um festival já tradicional… Adorei essa chance de fazer esses shows aí” ressalta Wagner, revelando ter recebido boas informações acerca de Guaramiranga também de colegas como César Camargo Mariano e Egberto Gismonti. “Sei que vários pianistas já foram e fiquei feliz de ir este ano”.
A apresentação deverá ser calcada em temas representativos da música brasileira, com novos arranjos para o duo. “A gente tem um show já pronto há muito anos, baseado no repertório do ´Tocar´. Claro que o tempo passa, a gente vem botando mais músicas, mas a base continua aquele repertório”, indica, destacando o disco que traz clássicos como “Na cadência do samba”, de Ataulfo Alves, Paulo Gesta e Matilde Alves, “Sonho de um carnaval”, de Chico Buarque”, e “Samba de uma nota só”, de Jobim e Newton Mendonça. Sem falar no repertório das Gerais: das variações sobre a “Vera Cruz” de Milton Nascimento e Márcio Borges a “Nave cigana” e “Sete tempos”, do próprio Wagner Tiso.
“É um show de duo, com arranjos especiais pra determinadas músicas de compositores brasileiros. Sempre mexo nas composições, faço alguns arranjos”, faz questão de adiantar o maestro. “E mostramos a nossa possibilidade de improvisação sobre esses temas da música brasileira, em uma homenagem a esses grandes compositores”.
O amplo leque do jazz
Dono de uma vasta trajetória, que perpassa tanto os trabalhos de muitos dos grandes intérpretes e compositores da música brasileira quanto instrumentistas norte-americanos de contribuição decisiva para a história do jazz, Wagner Tiso reage com bom-humor quando perguntado se o jazz nos festivais brasileiros estaria mais para Wayne Shorter ou Robertinho Silva. “Não sei… Estão no mesmo barco, não tão não?”, ri-se. “São dois instrumentistas tão diferentes… O Wayne Shorter é um dos músicos mais especiais que eu conheço. Gravei num disco dele em 74, foi um dos grandes momentos da minha vida. Pude repartir a gravação com Herbie Hancock, com Ron Carter, grandes legendas do jazz”, recorda.
“E o Robertinho Silva é um grande baterista!”, atribui, satisfeito ao saber que Robertinho também estará em Guaramiranga. Assim como outros amigos. “Quero aproveitar para mandar um grande abraço para o Antonio José”, pede. Atendido.
Ceará e novas Gerais
O maestro também fala com satisfação dos trabalhos realizados com um cantor e compositor cearense. “Tenho uma ligação muito antiga com o Fagner. Participei dos discos dele todos, do começo da carreira, desde o ´Manera fru fru…´. Tenho uma ligação muito forte desde aquela época”, recorda. “Inclusive fiz um show com a Nara Leão, no Rio, e convidei o Fagner. Ele participou desse show, depois me pediu pra apresentar o Mariozinho Rocha, da Odeon, onde eu era contratado. O Mariozinho fez o contrato dele e do Ney Matogrosso. A partir daí a gente ficou amigo, e fiz muitos arranjos pra discos dele”.
Após a visita ao Ceará, para os shows no Teatro Rachel de Queiroz, em Guaramiranga, na segunda-feira de Carnaval e em Fortaleza na sexta-feira, 19/2, no Theatro José de Alencar, Wagner tem vários trabalhos engatilhados. “Tem meus projetos de orquestra sinfônica, com minhas peças sinfônicas pra grande orquestra, e o jazz também, com a Orquestra da Petrobras”, destaca.
“Fora esses projetos, o Milton me convidou pra produzir com ele um disco de lançamento de novos músicos mineiros – principalmente da região do sul de Minas, onde a gente nasceu. Estamos começando a fazer esse disco, pra lançar ainda este semestre”, adianta. “São só novos músicos, com composições próprias e músicas conhecidas. O Milton participa cantando em todas as faixas”, revela. A caminho, novos sons das Gerais.
FIQUE POR DENTRO
A arte do arranjo
Protagonista de uma verdadeira escola de arranjos na música brasileira, Wagner Tiso, 64 anos, chama atenção para as mudanças que rondaram a função ao longo do tempo, em virtude da relação com o mercado. “Adoro fazer arranjos pra os artistas que acreditam no meu arranjo, que gostam que eu participe da criação. Mas depois daquela fase toda, os produtores convidavam a gente pra fazer arranjo e, quando a gente chegava no estúdio, já encontrava a base pronta. Era só: ´Você vai botar cordas aqui, vai botar metais ali…´”, relata. “Isso não é parceria! Você não era mais dono das suas ideias, não participava do trabalho real de criação. Era uma música de mercado, e você sendo usado pra botar cordas”, critica. “Fui criado ouvindo o Paulo Moura, o Moacir Santos, o maestro Gaya… Depois, os da minha geração: Luís Cláudio Ramos, Cristóvão Bastos… Tava acostumado a fazer arranjos com o Milton, o Gonzaguinha, passando noites e noites discutindo os arranjos. Por isso nessa época eu saí do mercado de disco, a não ser quando era convidadopor um próprio autor de disco.
Aí eu fazia”.
fonte »»» Globo.DiarioDoNordeste
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